Se Oxalufã representa a sabedoria da criação e Oxaguiã o movimento da transformação, Ọ̀ṣun (popularmente conhecida no Brasil como Oxum) é a própria essência da vida, da beleza e da continuidade. Ela é a divindade do amor, da fertilidade, da riqueza e das águas doces — os rios, cachoeiras e fontes que matam a sede da humanidade e tornam a terra fértil.
No Candomblé e na Umbanda, Ọ̀ṣun ocupa um lugar de imenso destaque. Ela não é apenas o arquétipo da vaidade ou da doçura; ela é uma das divindades mais poderosas e estrategistas do panteão iorubá, detentora de segredos profundos sobre a vida e a morte.
Neste artigo, vamos mergulhar nas águas douradas de Ọ̀ṣun para compreender seu mito, sua força e seus mistérios.
Quem é Ọ̀ṣun?
Ọ̀ṣun é a rainha da cidade de Ijexá (Ìjẹ̀ṣà) e de Osogbo (Òṣogbo), na Nigéria, onde corre o rio que leva o seu nome. Ela é a representação da energia feminina em sua plenitude: a mãe que gera, protege e nutre, mas também a mulher sedutora, diplomata e guerreira quando necessário.
Muitas vezes descrita apenas por sua beleza e doçura, a mitologia iorubá revela que Ọ̀ṣun é extremamente astuta. Ela é a única divindade feminina que faz parte do grupo dos Orixás primordiais (Irunmole) enviados à Terra por Olodumare para criar o mundo. Quando os Orixás masculinos tentaram governar o mundo excluindo Ọ̀ṣun, ela simplesmente retirou a fertilidade da terra, tornando as mulheres estéreis e a natureza seca. Os homens tiveram que implorar por seu perdão, provando que sem a energia de Oxum, a vida não prospera.
A Dona do Ouro e do Dinheiro
Para além da riqueza material, o "ouro" de Ọ̀ṣun representa tudo o que é valioso, reluzente e próspero. Ela rege o dinheiro, o sucesso financeiro e a abundância, mas também a riqueza espiritual e a autoestima.
É a Ọ̀ṣun que recorremos quando precisamos de caminhos abertos na vida profissional ou quando buscamos a cura para feridas emocionais. Ela é a senhora da fecundidade, protegendo as gestantes desde a concepção até o momento do parto, sendo a mãe zelosa que limpa as lágrimas de seus filhos.
Símbolos, Ferramentas e Elementos de Oxum
O culto a Ọ̀ṣun é marcado pelo brilho, pela pureza e pela sofisticação:
O Abebé: É o seu espelho sagrado, feito de metal amarelo (latão ou ouro). O espelho não serve apenas para a vaidade; ele reflete a verdade, afasta as energias negativas de quem olha para ele com maldade e protege contra feitiçaria.
O Ouro e o Latão: Metais que simbolizam a riqueza, a realeza e o brilho inabalável de sua presença.
Os Curis (Idẹ): Argolas e pulseiras de metal amarelo que ela usa nos braços, representando os laços de riqueza e axé.
Cores: O amarelo-ouro é sua cor principal, variando do amarelo claro ao dourado intenso. Em alguns fundamentos antigos, também aceita contas de cor âmbar ou verde-água.
Os Filhos de Oxum: Diplomacia e Encanto
Os filhos de santo regidos por Ọ̀ṣun costumam carregar o magnetismo e a complexidade de sua mãe espiritual. Geralmente, são pessoas:
Extremamente charmosas, carismáticas e com facilidade para a comunicação;
Diplomatas natos, que preferem resolver conflitos com jeitinho e inteligência a usar a força bruta;
Apreciadoras do conforto, do luxo, da boa culinária e das coisas belas da vida;
Profundamente emotivas, mas que guardam suas dores sob um sorriso radiante;
Estrategistas brilhantes, que sabem exatamente como e quando agir para conseguir o que desejam.
Como as águas de um rio, os filhos de Oxum parecem calmos por cima, mas possuem correntes profundas e intensas por baixo da superfície.
Culto, Dia e Saudações
Dia da Semana: Sábado, dia também compartilhado com Yemanjá e os Orixás das águas.
Comida Votiva: O Omolocum, um prato feito à base de feijão-fradinho cozido, refogado com cebola e camarão seco, e decorado com ovos cozidos inteiros (símbolo máximo da fertilidade).
Saudação: "Ora Yê Yê Ô!" (que significa algo como "Olhe por nós, paizinha/mãezinha!" ou "Salve a benevolente mãe!").
Sincretismo: No Brasil, Ọ̀ṣun é fortemente sincretizada com as aparições de Nossa Senhora, principalmente Nossa Senhora da Conceição (em Salvador e Recife) e Nossa Senhora Aparecida (a padroeira do Brasil, no Sudeste).
Conclusão
Ọ̀ṣun nos ensina que a suavidade tem o poder de contornar e desgastar as pedras mais duras do caminho. A água doce que ela governa é paciente, mas imparável. Evocar Oxum é atrair o amor-próprio, a prosperidade genuína e a doçura necessária para enfrentar as batalhas da vida.
Ora Yê Yê Ô! Que as águas doces de Oxum lavem nossas almas e tragam prosperidade aos nossos caminhos.